O novo pós-normal do gestor e líder de times – Complexidade, Caos e Contradição

Se você é um gestor ou líder de time e tem mais de 30 anos, provavelmente você foi educado em métodos de gerenciamento modernos. Esses métodos são baseados em conceitos chave como progresso, eficiência e modernização.

Algumas consequências desses pressupostos mentais podem ser sintetizadas nas dimensões abaixo:

  • Visão de sistemas: Os fenômenos são complicados, i.e., possuem muitas partes interconectados mas a relação entre elas é conhecida e pode ser descrita a priori.
  •  Planejamento: O planejamento é possível e pode ser realizado por ferramentas como cronogramas e redes que avaliam interdependências.
  • As relações possuem causa e efeito óbvias e instrumentos clássicos de gestão de risco são de grande auxílio para prever e evitar riscos.
  • Os prazos podem ser determinados por estimativas.
  • As pessoas precisam ser monitoradas para que a sua eficiência possa aumentar. A ociosidade no trabalho é danosa e buscamos portanto eficiência de recursos.
  • Relações de trabalho: São estáveis e baseadas na CLT.
  • Os processos são prescritivos, i.e, temos receitas claras do que fazer em termos de atividades, passos, etapas e papéis envolvidos.
  • O avanço ocorre fundamentalmente através das melhores práticas da indústria.
  • As mudanças são tipicamente revolucionárias, i.e., conduzidas através de iniciativas de grande porte conhecidas como projetos.
  • Empresas são organizadas em equipes com especialistas funcionais.
  • Os sistemas de informação de TI são monolíticos e feitos para durar, resultados de grandes projetos.
  • Aquisição de informações: Entrevistas um-para-um e documentação abrangente.
  • Profissões de gestão: Gerentes de projetos, gerente de qualidade, superintendentes.

Pare por um momento. Lembre como corpos de conhecimento como ISO, COSO, COBIT, CMMI, RUP, ITIL, PMBOK são organizados. A própria profissão e identidade do gerentes de projetos foi moldada por esses mecanismos.

De repente,  2020

O espírito do nosso tempo, aquela palavra legal do alemão chamada zeitgeist, não é mais do progresso, eficiência e modernização absolutos. Avançamos do moderno para o pós-moderno e do pós-moderno para o pós-normal.

Se o progresso, eficiência e modernização eram os lemas do mundo moderno, no mundo pós-moderno temos a relativização, pluralidade de conceitos e a individualidade com conceitos dominantes. E no mundo pós-normal temos a complexidade, caos e contradição como conceitos dominantes.

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Complexidade 

Sistemas complexos tem incertezas substanciais que não podem ser gerenciadas como ‘riscos’. Eeles tem uma multiplicidade de perspectivas legítimas.

Um sistema complexo em rede está cheio de incertezas, múltiplas perspectivas e propenso a comportamentos turbulentos que às vezes podem resultar em caos.

O clima, epidemias como o COVID-19, organismos biológicos, ecossistemas, organizações sociais, culturas humanas, a linguagem, o cérebro, serviços de saúde e até mesmos sistemas de informação de TI são exemplos de sistemas complexos.

Caos 

O caos não significa aleatoriedade. O caos é o resultado de muitas variáveis ​​independentes interagindo de várias maneiras diferentes em um sistema complexo em rede. Pequenas perturbações no sistema podem levar a consequências imprevisíveis e que somente podem ser estuados a posteriori.

Por exemplo, alguém pode comer um morcego em uma cidade na China e o seu emprego é ameaçado porque você e sua empresa estão em distanciamento social forçado. Isso é  o chamado “Efeito Borboleta”.

Contradição

Um sistema complexo tem muitas posições que são logicamente inconsistentes. Sistemas complexos à beira do caos ainda mais. As contradições não podem ser resolvidas. Elas só podem ser integradas e transcendidas. Em outras palavras, as contradições precisam ser sintetizadas e requerem a formulação de uma nova posição que incorpore a maioria das várias posições diferentes.

A contradição geralmente fornece os primeiros sinais de que um sistema está se movendo em direção à complexidade, caos e, eventualmente, para a pós-normalidade.

A gestão no tempo pós-normal

Em áreas onde o trabalho do conhecimento é dominante, não vemos mais ofertas abundantes de vagas para “Gerente de Projeto” ou “Gerentes de Qualidade”. Observo várias pessoas da minha rede, especialmente acima de 40 anos, perplexas e indignadas com esse movimento.

E, pior, aqueles que são demitidos de suas empresas simplesmente não conseguem se reposicionar. Ou precisam se reposicionar vários meses depois por salários menores do que tinham anos atrás. Algo mudou nas profissões do trabalhador do conhecimento.

As coisas nos tempos pós-normal não podem ser “gerenciadas” no sentido clássico da palavra.  Elas precisam ser, ao invés,  navegadas.

Para entender isso, vamos observar as consequências dos pressupostos da pós-normalidade podem ser sintetizados nas dimensões abaixo:

  • Visão de sistemas: Os fenômenos são complexos, i.e., possuem muitas partes interconectados e a relação entre elas não é conhecida a priori. Ela somente pode ser descrita em retrospectiva.
  •  Planejamento: O planejamento não é possível e agora precisa ser acomodado por instrumentos dinâmicos que absorvem fluxos variáveis e contínuos como por exemplo um Sistema Kanban.
  • As relações não possuem causa e efeito óbvias. O uso de narrativas é fundamental para entender como atuar em cenários de imprevisibilidade
  • Os prazos não são determinados por estimativas. #NoEstimates é o novo pós-normal. Ao invés, trabalhamos com previsibilidade (Forecasting).
  • As pessoas não devem  ser gerenciadas. Ao invés, devemos gerenciar o sistema de trabalho e permitir que as pessoas se auto-organizem. Ao invés de eficiência de recursos humanos, buscamos eficiência de fluxo.
  • Os processos não são prescritivos, eles são descritivos. O contexto é chave para saber o que fazer.
  • O avanço ocorre fundamentalmente através de práticas contextuais e de aprendizados por retrospecto através de narrativas.
  • As mudanças são evolucionárias, i.e., devem reduzir a resistência a mudança e incorporar visões contraditórias para permitir a criação de antifragilidade. A noção de grandes transformações e projetos está morrendo.
  • Empresas são organizadas em equipes com generalistas especialistas. Os papéis são fluidos e não mais fixos.
  • Os sistemas de informação de TI são baseados em serviços ou microsserviços, resultados de entregas de fluxo contínuo. Eles são desenhados para mudar.
  • Aquisição de Informações: Oficinas, Open Spaces, Aprendizado 3.0, Design Thinking e espaços que permitam que a contradição surja e possa ser integrada.
  • Relações de Trabalho: Dinâmicas, baseadas em empreendimentos, contratos e resultados ganha ganha.
  • Profissões de gestão: Empreendedores, Líderes, Mentores, Agentes de mudança e Agile Masters. As profissões clássicas da gestão estão morrendo e as pessoas que se agarrarem a elas podem talvez sejam varridas do mercado de trabalho.

Corpos de conhecimento como o Management 3.0, desenhado para gestão em ambientes complexos, e o Método Kanban, desenhado para gestão de mudanças evolucionárias, estão mais bem preparados para lidar com os tempos pós-normais.

Para o trabalhador do conhecimento e da inovação, é o momento de reflexão e questionar os seus pressupostos. O caminho que nos trouxe até aqui pode ser não ser o caminho que nos levará para o futuro.

Como já dizia Alvin Toffler ainda no século passado.

Os analfabetos do próximo século não são aqueles que não sabem ler ou escrever; mas aqueles que se recusam a aprender, esquecer, reaprender e voltar a aprender.

 

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